
”Nenhum escritor gosta de complicar seja o que for, e ainda menos de simplificar.”
“A certeza do golpe está nesse rigor”, torno eu. “E o seu martírio”.
O Delfim, José Cardoso Pires
Celebramos o centenário de José Cardoso Pires. E na Polónia ainda celebram mais! Acontece por estes dias o Congresso Internacional «100 Anos de José Cardoso Pires», organizado pelo Departamento de Estudos Portugueses da UMCS (Uniwersytet Marii Curie-Skłodowskiej), em Lublin.
Cardoso Pires escrevia numa pequena mesa, sempre com cigarros à mão e muitas vezes ficava a olhar para si no espelho, «para ver todos os lados da história», dizia. Acreditava na escrita como trabalho, um processo de aperfeiçoamento constante, «escrever é duro, é muito trabalho, mas o que se escreve sem esforço ninguém lerá com gosto», disse numa entrevista.
Com dinheiro emprestado por amigos, publicou seu primeiro livro em 1949, Os Caminheiros e Outros Contos, proibido pela censura. Seguiram-se mais de 20 obras, entre livros de contos, romances, crónicas, coleções de ensaios e peças de teatro.
Desde os pontos de vista de O Delfim, à trama policial de A Balada da Praia dos Cães, inspirado num caso real, passando pela sátira política de Dinossauro Excelentíssimo e pelo De Profundis, Valsa Lenta, onde nos conta o seu processo de recuperação da linguagem após um AVC – as obras de Cardoso Pires trazem-nos personagens multifacetadas, ironia e perspicácia, um português moderno e apuradíssimo e um estilo narrativo absolutamente contemporâneo.
«Cardoso Pires permanece excelente e inclassificável», escreveu Clara Ferreira Alves, que o entrevistou várias vezes.
Nada melhor que o ler para celebrar o seu centenário.
As suas obras têm vindo a ser reeditadas e encontram-se amplamente nas bibliotecas municipais. Complete a experiência com o recente Integrado Marginal: Biografia de José Cardoso Pires, de Bruno Vieira Amaral. Nos cinemas, estreou O Lavagante, adaptação da sua novela. E nos arquivos da RTP estão disponíveis documentários e entrevistas. Não há como perder!