
Um dia, ao passear num parque em Berlim, Franz Kafka encontra uma menina a chorar. Estará perdida? Pior ainda, diz a criança, a sua boneca desapareceu! O que farão agora, as duas separadas? Kafka ouve-a pacientemente. E depois revela que a boneca não se perdeu. Quando ninguém estava a ver, encontrou um companheiro que a convenceu a dar a volta ao mundo. E confiou a Kafka uma carta para entregar à menina. No dia seguinte a traria.
E durante semanas, Kafka voltou ao parque, trazendo cartas de todos os locais maravilhosos por onde a boneca viajava.
Querida Lizaveta: Viemos a Londres de balão. Ah, como é emocionante flutuar sobre montanhas, rios e cidades com meu amigo Rudolf, que trouxe um lanche de cerejas e geleia. Os ingleses andam sempre de guarda-chuva, pois chove constantemente, e longas varas para abrir caminho na neblina…
…Atravessámos a Sibéria de trenó sobre a neve e agora estamos na Ilha Sacalina, hospedados na casa de um senhor muito simpático e gentil chamado Anton Tchékhov. Ele mora em Moscovo, mas está aqui a escrever um livro sobre este estranho lugar…
…Estamos na China. Do outro lado deste cartão está a longa muralha. O imperador é um menino que usa um vestido cor de paprica. Mora num palácio do tamanho de Praga, com mil servos…
As cartas têm inspirado muitos escritores. Desde o eclético Guy Davenport, em Belinda’s World Tour (de onde retirámos os excertos acima), a Paul Auster, que cita o episódio no livro As Loucuras de Brooklyn.
Em Portugal, foi tema de uma curta-metragem de animação premiada, realizada por Bruno Simões.
Vivemos as histórias. Mergulhamos nelas para dar rumo às nossas inquietações e esperanças.
Por isso, a menina acreditou na boneca viajante.
E nós também acreditamos.
Ainda que nunca se tenha encontrado uma única linha de Kafka sobre esta história.