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Ainda há paciência para livros?

 

Nos últimos meses, o termo «post-literate society» — sociedade pós-literária ou da pós-literacia — tem aparecido com frequência nos média. Reflete a inquietação com o decréscimo do papel do livro, tanto na aprendizagem e transmissão de conhecimento, como nas nossas funções cognitivas.

Criado em 1962 por Marshall McLuhan, (A Galáxia de Gutenberg), o conceito descrevia uma sociedade onde a tecnologia multimédia acabaria por tornar a palavra escrita obsoleta. Mas, enquanto o autor preconizava o regresso a uma «aldeia global» com uma consciência holística, hoje assistimos à fragmentação da atenção e à incapacidade de concentração e de processar textos escritos.
Um estudo realizado em duas universidades do Kansas com estudantes do curso de literatura inglesa revelou que 58% não conseguiam compreender um autor clássico como Charles Dickens, e apenas 5% demonstraram ser leitores proficientes.
No Reino Unido já há universidades a oferecer cursos de «resiliência de leitura» para ajudar os estudantes a concentrarem-se o tempo suficiente para ler um livro.
A situação tornou-se tão preocupante que o próprio Sunday Times lançou, em outubro de 2025, a campanha «Get Britain Reading», desafiando os leitores a ler uns modestos 10 minutos por dia durante seis semanas.
Em Portugal a situação não é melhor. Segundo a APEL lê-se menos e irregularmente e um estudo da OCDE revelou que quatro em dez portugueses entre os 25 e 64 anos só conseguem compreender textos simples e curtos.

Como será esta «sociedade pós-literária»? Temos mais perguntas do que respostas… mas acreditamos na importância de preservar o espírito crítico e criativo. E para isso, de facto, ainda não encontrámos melhor do que ler e escrever.