
QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE
Um homem muito rico, mercador famoso, teve apenas um filho, o qual se criou com tanto mimo que o seu pai já não podia com ele de travesso. E por querer então sujeitá-lo com doutrina e castigo, o moço lhe fugiu e se foi.
E passando lá muito trabalho, se passaram mais de vinte e cinco anos sem vir, nem mandar cartas suas, de maneira que alguns o tinham por morto. Neste tempo o mercador veio a grande crescimento de fazenda, quintas, casas e outras herdades e chegando à velhice, no último da vida fez seu solene testamento: «Deixo por meu universal herdeiro o mordomo de minha casa.»
De tudo o que tinha fez inventário muito copioso, e no cabo disse: «Porém digo que tenho um filho, o qual há muitos anos se foi desta terra contra minha vontade, e não sei de certeza se é vivo ou morto; se este meu filho for vivo e aparecer como eu desejo, quero que a quem ora deixo por meu testamenteiro e universal herdeiro desta minha fazenda lhe dê ao dito meu filho o que quiser, sem ser constrangido a outra coisa, e a demasia lhe fique.»
E desta maneira foi o seu testamento por acabado, e desta enfermidade morreu. Soube-se da sua morte na terra onde estava o filho, o qual ouvindo a morte de seu pai e da grossíssima fazenda que deixou, partiu donde estava e veio a sua casa; e entrou por ela como por casa própria, perguntando quem tinha aquela casa e fazenda. Foi-lhe dito quem e por que titulo; e ele disse quem era, e foi conhecido por velhos que foram criados de seu pai. O mordomo, que o ouviu e entendeu bem isto, lhe respondeu:
— Esta fazenda, ainda que ficou de vosso pai, é toda minha, e não tendes nela mais do que dar-vos eu o que eu quiser. Vede o testamento de vosso pai, que ele vos desenganará, que vos não devo mais que dar-vos o que eu quiser.
E mostrou-lhe a verba do testamento, que o dizia assim à letra, como já declarámos. E o mancebo lhe pedia que fizesse conta que eram irmãos e que partisse pelo meio, o qual o mordomo não quis. Visto isto, disse o mancebo:
— Ora, já que sois obrigado a dar-me alguma coisa, pois diz que me dareis o que vós quiserdes, pergunto, que é o que vós me quereis dar, pois meu pai o deixou em vosso alvedrio?
Respondeu que lhe daria cinco mil cruzados, valendo a fazenda mais de cem mil. Rogaram ao mordomo que desse o que fosse honesto, ele nunca quis vir em nenhum arrazoado, pelo qual o demandou, e ambos vieram a juízo e ambos tiveram o testamento por bom; porém dizia um, que seu pai o não podia deserdar sendo vivo, nem nunca tivera essa intenção. Dizia o mordomo:
— Já teu pai presumia que eras vivo, e para vivo mandou que te desse o que eu quisesse, e assim não sou obrigado a mais.
Sobre o caso houve libelo, réplicas e o mais que em direito se costuma até ao arrazoado final, que indo o feito concluso, como o caso era de tão grossa fazenda, quis o rei da terra ser presente na determinação da sentença. Entre os mesmos julgadores havia diferenças; porém um velho se levantou em pé e disse:
— Ora, Senhor, veja Vossa Alteza o testamento, que diz: Dará o mordomo ao filho o que eu mordomo quiser; portanto vós, mordomo, dai ao filho do mercador isto que vós quereis, e fique-vos para vós o que lhe daríeis, porque a intenção do pai nunca foi deserdar o filho, mas por sustentar sua fazenda a fiou de vós. Para se cumprir o testamento é necessário dar-lhe o que vós quiserdes, e quisestes a maior parte, essa sentencio que lhe deis, e fique-vos o que lhe darias.
El-rei, e todos os que ali estavam presentes tiveram o caso por muito bem julgado e aprovaram a sentença, e assim se cumpriu.
(Contos e Histórias de Proveito e Exemplo (1575), Gonçalo Fernandes Trancoso)
Em Contos Tradicionais do Povo Português, Teófilo Braga. Histórias coligidas da tradição oral, publicadas em 1883 e 1914-1915. Fonte: Wikisource, grafia adaptada.
Teófilo Braga (Ponta Delgada, 1843 – Lisboa, 1924). Republicano, académico, intelectual. Escolhido para Presidente do Governo Provisório logo após o 5 de Outubro e, em 1915, eleito Presidente da República. Foi um dos primeiros autores a realizar uma pesquisa etnográfica sobre os portugueses. Além de Os Contos Tradicionais do Povo Português, publica cerca de 360 livros e centenas de artigos que se estendem pela poesia, conto, biografia e ensaio – sobre política, história, direito ou literatura. A comemoração do Dia de Camões e o desenho atual da bandeira portuguesa também se devem aos seus esforços.