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Histórias de verão 4 | A dama pé-de-cabra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A DAMA PÉ DE CABRA

Dom Diego Lopez era muito bom monteiro, e estando um dia na sua montada e esperando a caça, ouviu cantar muito alto uma mulher em cima de um penedo. E foi para lá e viu que era muito formosa e muito bem vestida. E enamorou-se logo fortemente dela.
E perguntou-lhe quem era. Ela disse-lhe que era uma mulher de muito alta linhagem. E ele disse que pois que era de alta linhagem, casaria com ela se ela quisesse, porque ele era senhor daquela terra toda.
Ela disse que o faria se ele lhe prometesse que nunca se benzeria. Ele consentiu e ela foi-se logo com ele.
Esta dama era muito formosa e com um corpo muito perfeito, exceto um pé fendido, como um pé de cabra.

Viveram muito tempo juntos e tiveram dois filhos, o mais velho teve o nome de Iñigo Guerra, a outra foi uma rapariga.
Quando comiam juntos, Dom Diego Lopez e a sua mulher sentavam o filho ao lado dele, e a filha ao lado dela.
Um dia ele foi ao seu monte e matou um porco muito grande e trouxe-o para casa. Pousaram-no em cima da mesa quando estava a comer com a sua mulher e os seus filhos.
Lançaram um osso da mesa e viram um alão e uma podenga a lutar por ele, de tal modo que a podenga se atirou ao pescoço do alão e o matou.
Dom Diego ao ver isto, tomou-o por um milagre, benzeu-se e exclamou:

– Valha-nos Santa Maria, nunca se viu tal coisa!

E a mulher que o viu benzer-se lançou a mão à filha e ao filho. Dom Diego travou o filho e não o quis deixar levar. Mas ela escapou com a filha por uma fresta do palácio e fugiu para as montanhas de modo que nunca mais a vissem nem à filha.

Depois ao cabo de um tempo foi este dom Diego Lopez fazer mal aos mouros, e prenderam-no e levaram-no para Toledo preso. Ao seu filho, Iñigo Guerra pesava muito essa prisão, e foi falar com os da terra para saber de que maneira o podiam tirar fora da prisão.
E eles disseram que não sabiam e que fosse às montanhas e achasse a sua mãe, que ela lhe diria como o tirar. E ele lá foi sozinho, em cima do seu cavalo, e achou-a em cima de um penedo.

E ela disse-lhe: «Filho Iñigo Guerra vem a mim porque sei bem ao que vens.» Ele aproximou-se dela e ela disse-lhe: «Vens perguntar-me como podes tirar o teu pai da prisão.»
Então chamou um cavalo que andava solto pelo monte, chamado Pardalo. Chamou-o pelo seu nome e meteu-lhe um freio e disse ao filho que nunca fizesse esforço para tirar a sela, nem o desenfrear, nem para lhe dar de comer ou beber, nem o ferrar. E disse-lhe que este cavalo lhe duraria toda a vida e nunca entraria numa batalha com ele que não vencesse.

Disse-lhe que cavalgasse nele, que ele o deixaria em Toledo à porta do seu pai ainda nesse dia. Assim que o cavalo chegasse, devia apear-se e achar o seu pai num curral. Devia pegar-lhe pela mão, fingindo que queria falar com ele, levando-o até à porta onde estava o cavalo. Ali devia montar, com o pai à frente, e antes da noite estaria na sua terra.
E assim foi.

(Livros de Linhagens, D. Pedro, Conde de Beja)

 

Em Contos Tradicionais do Povo Português, Teófilo Braga. Histórias coligidas da tradição oral, publicadas em 1883 e 1914-1915. Fonte: Wikisource, grafia adaptada

Teófilo Braga (Ponta Delgada, 1843 – Lisboa, 1924). Republicano, académico, intelectual. Escolhido para Presidente do Governo Provisório logo após o 5 de Outubro e, em 1915, eleito Presidente da República. Foi um dos primeiros autores a realizar uma pesquisa etnográfica sobre os portugueses. Além de Os Contos Tradicionais do Povo Português, publica cerca de 360 livros e centenas de artigos que se estendem pela poesia, conto, biografia e ensaio – sobre política, história, direito ou literatura. A comemoração do Dia de Camões e o desenho atual da bandeira portuguesa também se devem aos seus esforços.