Noutras linhas...

Afinal, de onde vêm os bons e os maus das histórias?

 

Heróis e vilões, o bem contra o mal. Estão nos filmes, nas séries, nos jogos e nas primeiras histórias que ouvimos. Acreditamos que fazem parte da nossa tradição narrativa. Mas será mesmo assim? Catherine Nichols, escritora norte-americana, diz-nos que esta dicotomia é uma invenção recente, com raízes políticas.

No ensaio The Good Guy/Bad Guy Myth (O mito do bom e do mau), publicado na revista Aeon, Nichols chama a atenção para o que realmente acontece nos contos de tradição oral: no João e o Pé de Feijão, o rapaz rouba o gigante sem qualquer justificação moral; a Gata Borralheira apenas precisa de ser bela para a história funcionar; o lobo dos Três Porquinhos só quer jantar. Como escreve a autora: «Nos contos tradicionais, ninguém luta por valores. As histórias podem mostrar as virtudes da honestidade ou da hospitalidade, mas não há consenso sobre o que são boas ou más ações.»

Tudo muda no século XIX com os irmãos Grimm. Quando recolhem e reescrevem os contos da tradição alemã, não querem apenas preservar histórias – o seu objectivo é construir uma identidade nacional. Esta tese é partilhada por Jack Zipes, professor e especialista em contos populares. Demonstra que os Grimm editaram sistematicamente os contos recolhidos para refletir normas e valores sociais muito específicos, transformando-os em instrumentos pedagógicos destinados a moldar o caráter da burguesia alemã (Os Contos de Fadas e a Arte da Subversão, Editora Perspectiva, 2023). Catherine Nichols conclui: o combate entre o bem e o mal é uma invenção recente, «evoluiu em paralelo com o nacionalismo moderno e, em última análise, dá voz a uma visão política, não ética.»

Afinal, bons e maus, têm muito mais histórias para contar…