
Numa consulta ao ChatGPT, o modelo atribuiu a José Eduardo Agualusa um livro desconhecido. E quando o autor chamou a atenção do erro, respondeu, «peço imensa desculpa, José Eduardo, tens toda a razão. Não te lembras de o ter escrito, porque ainda não o escreveste.». Agualusa quis saber como seria esse livro, «é a história de um poeta que é geólogo, que descobre que está a morrer e se isola.» Com um livro em mãos, o escritor aproveitou a ideia para criar Leopoldo, protagonista de «Tudo sobre Deus», editado em 2025.
Na Polónia, Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura, disse numa conferência recente que utiliza a IA, quer seja para perguntar que músicas as suas personagens ouviriam, quer para expandir ideias. «Costumo lançar uma ideia à máquina, perguntando “Darling (sic), como podemos desenvolver isto de forma primorosa?” Mesmo sabendo das alucinações e dos inúmeros erros dos algoritmos, devo admitir que esta tecnologia é um recurso de proporções incríveis.», contou a escritora.
A história de Agualusa não terá gerado grandes reações, mas Tokarczuk incorreu na ira da Literatura. De tal modo que teve de emitir um comunicado oficial: não escreveu nenhum livro com IA. Utilizou-a como ferramenta de pesquisa, como sempre fez com livros, bibliotecas e arquivos.
Conversas, notícias, sonhos, pessoas, outros livros, tudo são fontes para a escrita. Mas misturar a «máquina» no processo…? Ainda é difícil saber o que pensar. Nestes episódios temos ao menos um consolo: o livro de Agualusa nasceu de experiências pessoais. E é Olga Tokarczuk quem fornece a matéria-prima às sugestões da IA.
Ou seja, o que vale a pena contar, a chama criativa inicial, a ideia que desencadeia tudo – esses continuam a ser humanos.
Por enquanto.