
Esta questão surge de vez em quando nos cursos de escrita. «Não leio para não me deixar influenciar» ou «tenho receio de trazer para a escrita aquilo que estou a ler». Será mesmo verdade que a leitura contamina a escrita? O que se passa quando lemos?
A neurociência diz-nos que o cérebro não tem circuitos de leitura inatos. É a atividade da leitura que os constrói, criando ligações progressivamente mais ricas e complexas entre o córtex visual e as áreas da linguagem.
Ler equipa-nos para trabalharmos a palavra.
Também sabemos que a aprendizagem opera de modo implícito. Quando lemos, estamos a alimentar, de forma inconsciente, o nosso repertório de padrões e vocabulário.
Ler amplia a nossa fonte de recursos de escrita.
E ainda: a rede neuronal associada à imaginação é ativada tanto pela leitura como pela escrita. Mas os leitores frequentes demonstram maior capacidade de simulação social e narrativa.
Ler é o treino do cérebro para a escrita.
A influência da leitura na escrita é real, sim. Necessária e transformadora.
Quem não lê, terá outras influências: o quotidiano, as redes sociais, os média. Mas talvez mais dificuldade de superar a sua linguagem limitada e repetitiva.
A leitura não prescreve, nem impõe. A Escrever Escrever também não. Gostamos de estimular perguntas, abrir portas. E livros!