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Dicionário da Língua Portuguesa: uma história que ia ficando pelo «A»

 

De A a Z, diz a frase feita. Pois é, mas no caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa (ACL), sair da primeira letra demorou 208 anos!

A história começou em 1793, quando a Academia Real das Ciências de Lisboa se lançou no nobre propósito de fixar o idioma pátrio. O projeto ficou famoso… porque o primeiro e único tomo se ficou pela letra A, com a última entrada em azurrar. Alexandre Herculano não resistiu a uma alfinetada. Na Dama Pé-de-Cabra escreve «O onagro fitou as orelhas e… começou a azurrar, começou por onde, às vezes, as academias acabam.»

Em 1976, sob coordenação de Jacinto Prado Coelho, a ACL tentou de novo, com um projeto previsto em seis volumes. E, vitória! ultrapassou o azurrar, acrescentando azuverte. E também ficou por aí… Aliás, há quem diga que só puseram a nova palavra para não serem alvo de chacota…

Azar? Falta de dedicação? Nem por isso. No primeiro caso, o projeto terá sido vítima dos padrões exigentes, mas algo irrealistas, dos seus autores. Cada entrada exigia numerosas investigações e consultas. Só o primeiro volume citava já 150 autores e 500 obras. No dicionário de 76, o cancelamento deveu-se à portuguesíssima falta de fundos…

Em 2001, sai o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da ACL com o apoio da Gulbenkian. Dois volumes, quase 4 mil páginas. E, finalmente, de A a Z! Hoje, o dicionário passa pelo www. A edição digital, coordenada pela nossa formadora Ana Salgado, tem mais de 100 mil entradas e é permanentemente atualizada, acolhendo sugestões tanto de especialistas como do público geral.

Azurrar e azuverte ainda lá estão…